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Inspiração. Poucas coisas são consideradas essenciais para a produção artística quanto este elemento tão misterioso e, ao mesmo tempo, tão fundamental que precisa estar em tudo que nos rodeia para que possamos nos expressar. Ela exige dedicação além de talento para se manter e condições além de oportunidade para se multiplicar. Assim, sentir-se inspirado é uma necessidade, enquanto inspirar é sempre uma opção. Uma que foi incorporada por Renato Ratier desde o primordial momento no qual seus interesses se voltaram àquela forma artística que, entre nós brasileiros, ocupa o lugar mais privilegiado: a música.Muitos se declaram apaixonados por ela, mas o diferencial entre os protagonistas desta história de amor e seus coadjuvantes foi o que definiu o papel de Renato desde cedo. Vivendo na rica atmosfera de novidades musicais que se renovavam a todo instante na década de noventa, não se satisfez em apenas absorver a imensa quantidade de influências que chegavam a ele de todas as partes do mundo e investir em uma sólida reputação como DJ, mas procurou criar um pólo irradiador dessa cultura em pleno Centro-Oeste.Decorrência natural desses esforços foi o fato de que a região conheceu um movimento em torno da vanguarda da música eletrônica que em pouco tempo nada deveria em termos de agitação e sofisticação aos principais centros difusores de outras localidades brasileiras. Produzindo eventos para públicos de magnitude que ainda nem se imaginavam possíveis na cena àquela época, Renato acabou por inserir Campo Grande na rota dessa vanguarda que então começava a posicionar o Brasil entre seus destinos fixos. Concomitantemente, mantinha o universo cultural local em constante movimento através de iniciativas variadas como a publicação de fanzines, o lançamento de uma grife de roupas, a produção de um programa de rádio, entre muitas outras empreitadas que o redefiniram profundamente.
Uma atuação multifacetada que exigiu sempre aquele tipo de devoção que muitos se gabam de ter, mas poucos estão dispostos a realizar, e muito menos conseguem sintetizá-la num conceito tão único e poderoso como o D.EDGE, um nome que marcou a virada do milênio para a música eletrônica nacional de modo indelével. Desde sua inauguração em 2000, a casa rapidamente se estabeleceu como um dos clubs mais reputados do país com seu design arrojado e eclética programação, trazendo o melhor do cenário musical global a seus frequentadores. Feitos que são frutos de uma direção artística atenta e dedicada que se originam do autêntico amor pela música de qualidade, independentemente de procedência ou proposta.
Uma trajetória já gloriosa que talvez satisfizesse alguns espíritos inquietos e de apetite criativo menor, mas que apenas impulsionou Renato em direção ao centro do furacão. Em 2003, o conceito do D.EDGE chegava a São Paulo para mudar a vida noturna paulistana de maneira definitiva. Trazendo um singular e inovador projeto visual e um potente e cristalino sound system, o club desbravou a região da Barra Funda e elevou o nível das apostas em um já acirrado circuito de entretenimento na cidade. Congregando todos os estilos musicais e comportamentais possíveis e imagináveis em sua pista e se tornando um capítulo central da club culture brasileira no processo. Façanhas que refletem o cuidado de uma curadoria e projeto visionários e que são consequências de seu maior trunfo: seu idealizador não apenas é um DJ, mas um que sempre pautou sua identidade artística na amplitude de ritmos e públicos.
E tal iniciativa apenas espelha a própria experiência de Renato Ratier no comando de muitas pistas, cuja pluralidade está estampada por sua carreira. Uma que perpassa clubs que, ao lado do quartel-general D.EDGE, fizeram e fazem a história da cena eletrônica brasileira e mundial, entre eles Dama de Ferro, Confraria das Artes, Warung, Sirena, Vibe, Spin, Floor, Josefine, Fosfobox. Assim como eventos de dimensões e propostas diversas como Smirnoff Experience, Kaballah, Brasil Music Conference, Green Valley, Nokia Trends, Parada da Paz, Helvetia, UMF em suas edições brasileira e norte-americana e muitos outros. Uma coleção já representativa da variedade de audiências que podemos encontrar nacionalmente, não fosse ela devidamente correspondida por eventos como Melt Festival, Winter Music Conference, nos quais Renato se apresentou com enorme êxito em âmbito internacional.
Ademais, o reconhecimento desse compromisso não se revela somente fora, mas principalmente dentro da cabine. Especialmente através das parcerias tão variadas que pôde desenvolver ao tocar com uma miríade de nomes do quilate de Josh Wink, Tiga, Mark Farina, Ricardo Villalobos, Stacey Pullen, Richie Hawtin ou DJ Hell. Este último lhe confiando a elaboração de uma coletâna mixada para seu selo International Deejay Gigolos, tarefa realizada por Renato com excelência na forma da aclamada “Brazilian Gigolo”. Colaborações que demandam um nível alto de cumplicidade e são privilégio daqueles raros DJs que mantêm suas paixões em constante renovação sem jamais perder a intensidade. Algo que é denotado ainda mais pelas oportunidades de dividir os decks com um leque de talentos tão amplo que recobre o espectro que vai de Loco Dice a Derrick Carter, passando por Luciano, James Curd, Matthew Dear, Diz Washington, Tiefschwarz, Reboot, Sven Vath, Nick Curly e Henrik Schwarz.
Feitos que corroboram inegavelmente a solidez de um trabalho constante e rebuscado de pesquisa, do tipo que se origina na paixão pura e simples pela música e todo prazer que ela proporciona. Ao lado do irrefreável desejo de oferecer a seus pares, amantes tão dedicados dela como ele próprio, profissionais ou amadores, um pouco daquilo que tanto preza nesta tão rica arte. Uma retribuição que se materializa de forma mais acentuada ainda quando percebemos a atenção dedicada ao selo do D.EDGE, no qual procura inserir o Brasil definitivamente no mapa mundial, oferecendo uma plataforma segura para a proliferação e disseminação global de talentos locais em cuja qualidade aposta, muitos deles originados na própria cabine do club.
Em suma, este é o papel daqueles estimamos como pioneiros: o de retribuir, o de inspirar. E é esta generosidade que faz de Renato Ratier um DJ que, além de viver história da vanguarda eletrônica no Brasil, também ajuda a escrevê-la. Sempre contando com pessoas que, como ele, estejam de cabeça e coração abertos para este infinito universo de estímulos, possibilidades e momentos que são conjurados através do som, mas precisam de uma visão especial para se concretizar.
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